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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PREFIRO O CARNAVAL DAS MÁSCARAS

Já se aproximam as festividades carnavalescas, onde se esbanje alegria, suor e adrenalina pra valer. É sabido por todos (as) que o carnaval é uma das festas mais populares do mundo ocidental, em particular do Brasil. Não estou preocupado em traçar uma cronologia histórica acerca dessa festa, tampouco, dicionarizar sua terminologia, muito menos, demonizá-la a luz da fé como faz a maioria dos religiosos. Pelo contrário, prefiro encarar o carnaval como sendo ainda uma festividade popular.
Vale a pena adentrar-se nas raízes históricas do carnaval, bem como perceber os mais diferentes contornos que a mesma sofreu no decorrer da história e nas mais variadas tradições: políticas, sociais, econômicas, culturais e, principalmente, religiosas. A festa do carnaval remete-se principalmente ao mundo ocidental medieval, ou melhor, à Europa sincrética, mais precisamente cristã dominante. Prefiro ler a história do carnaval à luz das máscaras que vai da antiga Grécia ao fevereiro brasileiro.
Neste período marcado pelo paganismo, diga-se de passagem, usurpado pelas “leis santas” impostas pelo sistema religioso imperante. A festa de carnaval tratava-se de um momento precedente à quaresma; esta, com a prática da abstinência de bebidas e comidas; àquela, por sua vez, dada aos prazeres da vida, com muita comida e bebida, um verdadeiro manjar pagão.
Dentro desse contexto medieval, além da esfera religiosa, esta, representada muito bem pela religião cristã; existia a realidade socioeconômica, na qual os (as) cidadãos (ãs) estavam inseridos (as) inclusive, os religiosos e piedosos cristãos. Neste contexto, interessante notar o poder repressivo e excludente da Europa cristã, pois as ditas “boas maneiras” proporcionavam para a população, extrema obediência e submissão às autoridades religiosas e políticas daquela época. 
Mediante este estado de repressão e total falta de liberdade, a população, inclusive religiosos, viram-se na obrigação de protestarem contra o abuso de poder e domínio sobre todas as esferas da sociedade. Para isso, utilizavam máscaras, como forma de satirizar, ridicularizar ou zombar do poder dominante. As máscaras, a rigor, serviam para esconder o estado de repressão e exclusão no qual o povo estava inserido. Ao longo da história, o carnaval vem assumindo diferentes formas, como mítica, pagã, evasiva, cultural, folclórica e até mesmo diabólica. 
Desse modo, resta perguntar: será o carnaval uma festa de resistência ou cultura opiada do povo? Compreende-se que o carnaval atual nada tem a ver com suas raízes históricas, pois em seu nascedouro, sua ênfase estava justamente na busca pela liberdade e, acima de tudo, na resistência contra o poder imperante.
Tinha-se uma festa popular, no sentido de lugar de encontro da massa sofrida. Mediante o exposto, leva a crer que atualmente o carnaval das máscaras, vem sendo substituído pelos interesses das grandes multinacionais, do poder dominante e do sistema midiático Globocolonizador, que a cada ano vem distanciando a massa da resignificada Europa medieval atual.
De fato, o carnaval atual com o seu sambódromo, digo, exclubódromo com seu sistema cordão de isolamento e abadás a preço de ouro, distancia-se sobremaneira do seu nascedouro.  Acredita-se que seria muito mais prazeroso se o carnaval atual pudesse utilizar as suas máscaras para satirizar a política nacional em particular, alagoana.
Seria bem mais lúdico utilizar as suas máscaras para afastar os demônios taturânicos panteão político alagoano, bem como protestar contra esse estado medieval que a cada dia usurpa a dignidade do seu povo, ainda de fé nos deuses não enclausurados. 
Lamentavelmente, devido ao ethos do fundamentalismo protestante, dogmatismo católico e sociedade das bundas e do corpo perfeito, o carnaval passou a ser diabólico, carnal, pecaminoso, pornográfico, mundano e anti-religioso. Assim, tem-se uma verdadeira inversão de valores e, conseqüentemente, uma ruptura com o mítico, político e religioso.
Além dessa inversão e ruptura acima citadas, o carnaval atual parece servir como narcótico ou ópio à massa, pois em meio à exclusão e inumanidade existentes, nada melhor do que uma boa mulata siliconizada para fazer o povo esquecer da sua trágica realidade vivencial. Mesmo diante de todo aparato negativo do carnaval, torna-se possível o pobre por algumas horas, se tornar rei e a periferia regada por um bom alambique, sentir-se gente de verdade - digamos - um povo feliz.
As máscaras neste sentido assumiriam a forma de legitimação de um povo ou grupo; sua importância, criatividade, virtude e aquilo que ele tem de mais importante: o prazer pela vida. Que neste carnaval aprendamos a usar a máscara, não da hipocrisia, mas da liberdade; da resistência; do protesto e da alegria de também ser gente e, acima de tudo, poder sair cantando: “... Viver e não ter a vergonha de ser feliz...”. 
Adriano Trajano
Pastor da Igreja Batista em Chã Preta/AL
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